sábado, 3 de novembro de 2012

Gramática: Normativa x Descritiva

Uma das coisas que mais me chamou atenção no curso de Letras foi que a gramática da escola (aquela que até hoje muita gente nunca aprendeu direito, a Gramática Normativa) não é a única que existe. As matérias Linguística I e Leitura e Produção de Texto I (entenda-se linguística textual) são um abrir de olhos para as diversas regras/variações que existem dentro da língua portuguesa.

Assim, por entender que a língua é viva (como explicou o colega Hugo em seu texto sobre preconceito linguístico), o estudo linguístico desenvolveu a Gramática Descritiva, que tem um alcance maior e mais real do que realmente acontece no português ou em qualquer outra língua.


Gramática Normativa

A Gramática Normativa, apesar de estar enfraquecida, ainda é a que predomina dentro das salas de aula de ensino fundamental e ensino médio. O motivo é que o modelo para essa gramática são os textos literários ou a variedade falada pelas pessoas com maiores posses. Dessa forma a ideia de domínio da variedade culta se mistura com a ideia de poder, então quem tem domínio da norma culta é letrado, tem mais capacidade que outros.

E é assim que a Gramática Normativa se mantém presente até hoje: imutável, ditadora de regras de bom uso da língua, o que é certo o que é errado, prescritiva. Qualquer desvio indica pobreza de conhecimento, inferioridade.


Gramática Descritiva

A Gramática Descritiva tem força principalmente no ensino superior. Ela não busca prescrever a forma correta de falar e escrever, ela faz a descrição da variedade da língua dentro de seu contexto. O exemplo mais o usado é a linguagem da internet: “E aí o que que nós vamo fzr no finds?”. O linguista descreveria a estrutura e as escolhas das palavras de acordo com o seu contexto e intenção dentro do grupo social em que a frase está inserida. E diria que não está errado. A sentença, cujo significado no “bom português” seria “E aí, o que nós vamos fazer no fim de semana?”, tem toda a razão de existir porque é mais uma forma de variação.

Para a Gramática Descritiva, portanto, a Gramática Normativa é somente outra variação possível em uma língua.



Postado por: Carolina Aurea

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Anteriormente ao Renascimento, as caracterizações gramaticais relacionavam-se particularmente às  línguas clássicas como por exemplo o latim. A reflexão do toscano Dante Alighieri (1265-1321) sobre as chamadas línguas vulgares da penisula itálica foi uma  das raras exceções conhecidas na Europa. Essas línguas tinham origem latina, porém muito utilizada pela população  não teve função linguística nos domínios culturais e nas instituições sociais e politicas, relacionadas ao latim. Dante Alighieri, do partido burguês ghibelino, fugiu de florença quando o partido da nobreza, os guelfis, conquistou o governo daquela cidade-estado. Durante seu exílio, conheceu a penísula itálica. Antes mesmo de escrever a Divina Comédia, em vulgari eloquentia, escrito entre 1304 e 1380, esclareceu sua opinião sobre a linguagem humana em geral, e também sobre os vulgares falados na Itália em especial.
Em sua obra, Dante divide as línguas da Europa em três grupos: o grego, o germânici-eslavo e românico, propondo ainda uma subdivisão do último grupo em línguas d' oil, língua d' oc e língua do si. Dante classificava a península itálica em quartoze  grandes dialetos, cada um caracterizado por variações secundárias. Podendo observar seu propósito político, pois buscava o melhor vulgar para ser falado em toda península  no contexto de uma unificação que compreendia como necessária. O critério de Dante avaliar era mais estilístico e subjetivo do que científico. O milanês, o bergamamasco e o friulano encontram-se entre os falares  considerados piores para desempenhar função de língua peninsular. Vendo o genovês como desagradável  e o vêneto como híspido. Para o mesmo, os falares trentino e piemontês não eram dignos de ser considerados, devido à sua demasiada proximidade de outras línguas ( respectivamente o alemão e o francês). Dante classificava bárbaros todos falares plebeus.
alemão


Postado por: Andréa Ferreira
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Fonte: A pré-história da Línguistica

Dica de leitura

Manual de linguística, de Mário Eduardo Martelotta, é um livro sobre linguística muito bom, que faz um apanhado geral e que expõe os assuntos de maneira clara. Os diversos colaboradores do livro falam das correntes linguísticas, psicolinguística, sociolinguística, o que caracteriza a linguística como ciência... Abordam variados temas de uma forma não cansativa e interessante para quem está em seus primeiros contatos com essa "ciência que é inteiramente desconhecida para a imensa maioria dos estudantes brasileiros que ingressam em uma universidade" (MARTELOTTA, 2009).

Aqui um link para ler o começo do livro que fala sobre conceituação, linguagem e língua e outros temas.



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Gerativismo

O gerativismo se iniciou nos Estados Unidos em 1957 com a publicação do livro Estruturas Sintáticas, de Noam Chomsky. Este linguista é o pai e também o mais influente teórico da linguística gerativa. As teorias do gerativismo, criadas por Chomsky, vieram em rejeição a uma teoria da psicologia, o behaviorismo – linha de pesquisa muito forte nos EUA.

O verbo “to behave” do inglês, significa em português “comportar-se”, e as teorias do behaviorismo são justamente voltadas para o comportamento, ou seja, o condicionamento. Para os teóricos dessa corrente, a linguagem seria adquirida através da repetição constante. Por exemplo, uma criança que está começando a falar, escuta os pais dizerem “bola, bola” toda vez que se referem àquele objeto esférico. Dessa forma, a criança começa a tentar imitar o som “b-o-l-a”, sendo, portanto, condicionada a chamar aquilo de “bola”.

Esse pensamento era tão forte que influenciou o ensino de língua estrangeira por muito tempo. Temos como exemplo o eterno diálogo ensinado nas primeiras aulas de inglês: “How are you?” “I’m fine. And you?” (“Como você está?” “Eu estou bem. E você?”). Com o passar do tempo essa metodologia de ensino acabou por ser abandonada, pois os alunos quando eram expostos a situações/perguntas diferentes não sabiam desenvolver uma conversa. E as duras críticas de Chomsky também enfraqueceram o behaviorismo.

Então, o que estuda o gerativismo? O gerativismo busca descrever e explicar o funcionamento da capacidade natural do ser humano de produzir e compreender frases, ou seja, busca entender “um dos aspectos mais importantes da mente humana” (MARTELOTTA, 2009).

Para essa escola linguística, a capacidade de linguagem é inerente ao ser humano, está na genética. Diferentemente do behaviorismo, que, como já foi dito, acredita na aquisição da linguagem através de estímulos do meio.

Como consequência dessa visão, Chomsky cria a Gramática Universal. Por acreditar que a faculdade da linguagem é inata ao ser humano, então todas as línguas naturais possuem uma gramática semelhante. As línguas podem soar o mais diferente possível, mas todas possuem elementos (artigo, substantivo, verbo) que se organizam de maneira parecida para formar uma sentença interrogativa, afirmativa, etc.

O estudo da Gramática Universal pode ser dividido em duas frentes: o “princípio”, que estuda exatamente os pontos em que as línguas se assemelham; e o “parâmetro”, que estuda as variações.

Enfim, os modelos do gerativismo se voltam para esse âmbito imaterial, ou seja, os estudiosos fazem análises longe do campo extralinguístico. O contexto não interessa. Para eles é necessário saber como o ser humano é capaz de compreender e criar sentenças nunca antes ditas, de perceber quais frases são gramaticais ou agramaticais (ex.: “comeu João feijão o frio”). Por isso as teorias são “hipóteses abstratas” e não fatos concretos.


Postado por: Carolina Aurea
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Fonte: Manual de Linguística / Mário Eduardo Martelotta, (org.). - 1ª ed., 2ª reimpressão. - São Paulo : Contexto, 2009.

PRECONCEITO LINGUÍSTICO

Língua viva.


Dentro da estrutura de ensino brasileira, sempre tivemos como prática no ensino da língua portuguesa, de forma bem específica, uma cobrança no que diz respeito à forma normativa da gramática portuguesa. Os professores brasileiros em geral sempre se dedicaram a fortalecer a cristalização da língua portuguesa nos moldes da estrutura da língua portuguesa de Portugal. Deixando assim de lado os estudos sobre variações regionais da língua, suas transformações sociais com o passar dos anos e outros aspectos que compõe as variações de uma língua. Não se tem a prática de análise do funcionalismo da linguagem na educação brasileira, a não ser no ensino “superior” (universidade, academia).
É comum se ouvir frases do tipo: “o melhor português do Brasil é o falado pela população de São Luis” ou ainda “quem não fala direito (dentro dos padrões normativos) não tem conhecimento”. Essa prática, esse estereótipo do saber ainda se mantém até hoje, por falta de divulgação, disseminação da estrutura funcionalista da linguagem, seu poder de identificar as mudanças da língua em uma estrutura social, suas variações essenciais e vitais para uma língua tão rica e viva como a portuguesa. É preciso uma desmistificação desses acordos linguísticos que não “abarcam” o nosso cotidiano comunicativo. Dentro da linguística atual, já existem adeptos à ideia de se elaborar uma gramática brasileira própria, que “abarque” nossa realidade linguística, uma revitalização da estrutura lusitana, a fim de aproximar a população brasileira de uma comunicação cotidiana. Talvez nessa nova postura, se encontre a ideal forma de proximidade do funcionalismo ao formalismo em nossa língua portuguesa e, quem sabe, uma maior identificação dessa população com tantas variações étnicas.




Postado por: Hugo